domingo, 28 de outubro de 2007

Das Derrotas e Fracassos


"Aprendi com as Primaveras a me deixar cortar para poder voltar sempre inteira."
(Cecília Meireles)

Esta frase da Cecília por muito tempo serviu-me de mote.
Mas devo confessar que ando cansada.
Muito cansada!
(Rita de Cácia Cansada de Guerra).
E agora a guerra é interna.
Sempre achei que tivesse muita força.
Capacidade o bastante para reinventar razões e levantar-me do chão, depois de mais um tombo.
Agora, aos poucos, a saudade vai consumindo minhas energias.
Pesada feito mão de chumbo pesa sobre o peito, dita as ordens!
Vai tirando a minha capacidade de reinventar a vida, de reunir forças e recomeçar novamente.
"A ausência diminui as pequenas paixões e aumenta as grandes,
da mesma forma como o vento apaga as velas e atiça as fogueiras."
(François de La Rochefoucault)


Ou parafraseando o criador de o Pequeno Principe:

"O essencial é invisível aos olhos; só se vê bem com o coração."
(Antoine Saint-Exupery)


Então quando o amor se transforma em saudade, eu fecho os olhos, respiro fundo e procuro sentir a presença de quem já não está perto de mim.
De inteligente tenho muito pouco, pois se inteligente fosse, já teria aprendido as lições que os tombos deveriam ter-me ensinado. Não consigo cumprir promessas que fiz a mim mesma.
Não quero pena. Quero reagir definitivamente. Quero me superar.
Tem de existir um dispositivo, um interruptor qualquer, que ao ser acionado acabe com isso definitivamente.
Não quero mais vestir máscaras. Fingir que sou feliz, quando não o sou.
e cada vez mais me sintir invadida pela dor.
Será que gosto dela?
Não! Com toda certeza não!
Porque então não me protejo?
Por que repito sempre os mesmo erros?
Por que deixei e deixo que me machuquem?
Por que não tomo precacuções?
Seria isso o que chamam a roda de Samsara?
Quero sorrir, quero rir!
Quero ter novas memórias.
Quero ter novos sonhos!
Quero viver (e não apenas sobreviver).
Quero ouvir o Milton sem chorar.
E não sei como.
O trabalho tornou-se um vício.
Um anestésico para a dor.
O que se pode fazer quando se está num labirinto há anos e não se encontra uma saída?
Alguém teria a resposta para isso?
Sou infantil demais e esta é a grande verdade.
Uma criança que já viveu muito, que já sofreu tanto.
Sem rugas (na face), mas com muitas delas na alma,
calos na memória, que insistem em me atormentar
mas que não servem como antídoto conta a dor.
Espero curar-me de ti dentro de algum tempo.
Vou tentar seguir à risca as prescrições da vida.
Receitando-me: tempo, abstinência, e solidão.
E meus livros, meus amados livros.
Chego à conclusão de que a derrota,
para a qual nunca estamos preparados,
de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente,
é afinal instrumento de renovação de vida.
Tanto quanto a vitória,
estabelece o jogo dialético
que constitui o próprio modo de estar no mundo.
Se uma sucessão de derrotas é arrasadora,
também a sucessão constante de vitórias
traz consigo o germe de apodrecimento das vontades,
a languidez dos estados pós-voluptuosos,
que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes.
Perder implica remoção de detritos:
começar de novo."
(Carlos Drummond de Andrade)



E é verdade...
Temos de viver sem medo das feridas (ou pisaduras como se diz por aqui),
que a vida pode fazer, sem medo da poda que algumas pessoas
que passam pela vida da gente pode nos proporcionar porque,
na verdade, as dores fazem parte da vida e nos fortalecem.
(Ou endurecem?)
Cada cicatriz é uma batalha vencida.
E arriscar-se, é tentar, e tentar é viver.
Por mais que você se machuque, ainda vale a pena.
Vá à luta porque você é uma árvore forte e muito bonita!
Você é como o bambú!
É assism que me dizem, se isso é ou não verdade, não sei mais.
Já julguei saber, hoje não sei mais.
Só sei que nada sei, pois julgando que tudo sabia:
"Esparramei meus sonhos a teus pés.
(E você não seguiu o que estava na tabuleta:)
Pisa com cuidado!
É sobre eles que caminhas."
(Manoel Bandeira)
O que resta de mim hoje é isto, um cachorro correndo atrás do seu próprio rabo.
Buscando respostas, buscando um caminho.
Uma forma de se encontrar.
Já que ...
Nenhum dos meus caminhos guarda a tua sombra:
só as minhas mãos ficaram maiores com a tua ausência
e andam perdidas, não sabendo encontrar-se uma com a outra.
O ventre de cada dia é um espelho a recordar-te
um espelho onde o meu rosto não cabe
e eu avanço,
petrificado de silêncio,
como se me chamasses,
tendo-te cada momento mais distante
nas asas cansadas dos olhos sonolentos.
Se descendo minhas pálpebras prendesse a tua imagem,
jamais amanheceria para mim.
Se as minhas mãos decepadas pudessem encontrar-te,
dar-te-ia minha mãos como espada para o teu regresso.
Assim, gasto-me nos longos túneis desta ânsia,
certo de que jamais estarei presente para ti
em cada estrela
que descobrires na noite.
José Bento, in 'Silabário'

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