Aquilo que somos, é algo muito maior do que podemos imaginar. Em meu ser pulsa uma única vida, feita de muitas existências, e cada uma delas acrescenta novas impressões e sentimentos.
Quantas existências ainda serão necessárias até que toda natureza contida em minha essência se revele por completo? Não sei. E por tudo aquilo que em você me inspira carinho e conforto, deixo o coração aberto para a saudade e o desejo de ter você sempre bem perto de mim. Falo ao seu coração, pois assim nos entendemos melhor. Nesta carta deixo o registro de quanto sinto sua falta. Ainda criança descobri a grande distância que havia entre o meu querer e meu poder, e pude constatar quanta ingenuidade existe naqueles que pregam que querer é poder. Que pensamento mais imaturo está oculto nesta afirmação. Se levado à sério este discurso vazio, devemos nos prevenir, pois as crianças na mais tenra idade certamente tem todo o poder para mudarem toda a realidade dos adultos, pois querer é que não lhes falta. Verdade é que esqueci completamente esta lição. Este esquecimento trouxe-me muita angústia e sofrimento, por ter mobilizado tanto desejo e não ter podido sustentar minhas pretensões. Meus pontos negativos colocam o problema da inadequação; os pontos positivos, os desafios da responsabilidade. Nossas forças ou virtudes fazem com que nos sintamos solitários, alienados, desligados do rebanho, e a vontade de pertencer pode superar todo o desejo de realizar as nossas mais altas potencialidades. Entrei no jogo daqueles que supostamente detêm o poder. Poder da persuasão. Então a dor que experimentei é a dor da ressignificação, do verdadeiro crescimento, pois crescer significa abandonar os mais queridos sonhos megalomaníacos da infância. Crescer significa que eles não podem ser realizados. Crescer significa adquirir sabedoria e habilidade para conseguir o que se deseja, dentro dos limites impostos pela realidade. Uma realidade de poderes diminuídos, liberdades restritas, e de conexões imperfeitas com as pessoas amadas. Uma realidade construída, sobre a aceitação das nossas perdas, pois a vida desperta é como um sonho sob controle. As realidades do amor e do nosso corpo nos convencem de que nem tudo é possível. Não somos seres sem limites, e jamais nos livraremos das barreiras impostas pelo proibido e pelo impossível, incluindo os limites impostos pela culpa.
" Pois o erro gerado nos osso
De cada mulher e de cada homem
Deseja o que não pode ter.
Não o amor universal,
Mas ser amado sozinho".
(W.H.Auden)
Aprendi que as pessoas que se sacrificam, que não dão importância às suas necessidades, são um fardo, e não uma alegria, uma inspiração ou exemplo de qualquer coisa positiva que podemos querer aprender. Não podemos viver para os outros, não podemos ser o que os outros querem que sejamos.É bem mais fácil tornarmo-nos o que os outros desejam, mas, ao fazê-lo, renunciamos aos nossos sonhos. Esta é uma verdade tão simples, Não podemos fugir disso, ou estaremos nos enganando. Fala-se muito em viver o presente, mas não se consegue viver no presente se não entendemos (e curamos?) o passado. E neste processo de cura, a expressão dos sentimentos, dos pensamentos é muitas vezes curativa. Mas para que isso possa acontecer, é básico saber ouvir com serenidade e empatia, sem interromper com sermões, conselhos ou mudando de assunto, pois isso faz com que as pessoas tenham medo de falar na sua presença, cria-se um sentimento de falta de confiança em você mesmo ou em que mostra a alma. É preciso criar um contexto onde possamos expressar pensamentos e sentimentos sem medo do ridículo, da censura, do sarcasmo ou da condenação. Tenho feito de minha saudade uma ponte para seguir a minha trajetória que não tem permitido tréguas. Para transpor as quase intransponíveis barreiras das impossibilidades. Para fortalecer nossos laços. Quando a gente se sente sozinho, capta com maior rapidez as pequenas alegrias e as deposita no coração, alimentando a alma e seguindo em frente. São momento fugidíos, mas que fazem da vida uma festa, um incentivo à novas tentativas e novas buscas. E assim vou seguindo, recolhendo pedras e plantando flores. Deixando pelo meio do caminho os quase amigos, os quase amores, os quase inimigos. Muito cedo aprendi que nada é para sempre. A impossibilidade de compreender a vida está tão bem expressa na sensação de ser quase triste e ao mesmo tempo quase feliz.
"A amizade quase sempre é a união de uma parte da mente
com uma parte da mente de outra pessoa;
as pessoas só são amigas em determinadas ocasiões".
(George Santayana)
Então, que seja eterna enquanto dure ...

Um comentário:
really awesome blog
Postar um comentário