
Encontrei um dia este texto, atribuído à Artur da Távola, se é dele .... não sei.
O eu e o mim ...
Arthur da Távola
O eu e o mim (OU SI MESMO): dois complexos fixos da verdade individual.
O eu e o mim (OU SI MESMO): dois complexos fixos da verdade individual.
O eu pede vitórias e bens internos ou externos.
O mim pede integração, paz, harmonia, adequação do que se faz com o que se é.
O eu tem vários direitos, vontades e apetites que precisam ser atendidos para o equilibrio do indivíduo.
O mim exige que tais direitos, vontades e apetites sejam atendidos sem danos à estrutura e à singularidade de cada ser e sem danos a terceiros,à vida, à sociedade, à natureza.
O eu diverge, luta, ora se iguala aos outros, ora se diferencia, peleja, procura.
O mim converge, suporta, elabora, aglutina, registra, não julga, nasceu sabendo.
O eu revive.
O mim convive.
O eu parte.
O mim reparte.
O eu vive, sofre e reage à cultura de seu tempo, ao mundo que o cerca, à justiça, as vontades circundantes; às influências do meio.
O mim traz sabedorias não verbais, anteriores ao tempo, ao primata, à sociedade.
Só a elas atende.
O eu é nacional, local, atual.
O mim é universal, interespacial, eterno.
O eu é Pátria.
O mim é cosmos.
O eu é um mosaico de modos de ser e fazer, procurando crescer, melhorar, se auto-afirmar.
O mim já nasce pronto e definido, próprio e sem modificações, livre e saudável, essencial.
O eu é responsável pelo que chamam de "nossos êxitos" (mesmo os mais legítimos e merecidos), vitórias,progressos.
O mim não precisa preferir para demonstrar o que quer, porque não vive de desejos, opções ou "quereres": vive de essências e integrações secretas com o que é indizível, indefinível, indeclinável, porque tão claro e simples que qualquer explicação o limita, faz esconder ou destrói.
O eu é melodia.
O mim é rítmo.
O eu é música, o mim é silêncio.
O eu vê, seleciona, classifica, identifica, racionaliza, divide, diversifica, detalha, pormenoriza, compartimenta, define para entender, explicar, saber e conhecer.
O mim reúne, aglutina, engloba, abarca, envolve, junta, condensa o que está além do entendimento, da razão, da definição, do saber ou do conhecimento.
O eu está.
O mim é.
O eu diz.
O mim luze.
O eu fala.
O mim percebe, persabe, pressinte e persente.
O eu vive querendo aprender o que o mim já nasceu sabendo.
Para o eu, cada nova verdade é uma fascinante descoberta.
Para o mim não há alegrias especiais pois do Tudo ele participa, portador que é do elo cósmico, da matéria comum ao universo, do fluxo eterno e natural das coisas.
O eu é político.
O mim é existencial.
O eu alegra, encanta e distrai as nossas vidas, dá-nos glória, medalhas, uma biografia boa ou má, mas uma biografia repleta de esperança e aventura do viver.
O mim não é alegre ou triste: portador da essência, tudo é para ele uma rotineira (porém não cansativa, porque vital) repetição dos ciclos que conhece e jamais revela ao eu, para não o decepcionar ou tirar a graça das suas descobertas.
O eu se esforça por chegar aos territórios de onde veio o mim.
O eu exige, toma, dá, recebe.
O mim concede, recolhe-se, não tem necessidade de vencer ou dominar.
O eu é tudo que desenvolvemos.
O mim é o que não precisa mudar para ser.
Eu e mim constituem os dois pólos da nossa aventura de vida descoberta.
Os caminhos do eu são uma penosa ou alegre viagem de distração do mim.
Mas acabam nele.
Ainda que atravessando o inferno.
Ou deveriam acabar, porque o homem só é maduro quando eu e mim estão sobrepostos e integrados, entre eles não havendo espaços vazios nos quais se instalam as doenças, as distonias, as dissonâncias, as dissintonias, os derrames de impasses, desentendimentos, movimentos no sentido contrário do nosso ser.
Dor e doença são a substância que ocupa o espaço entre o eu e o mim.
Quando ele não existe, elas também não.
Fazer do eu uma expressão vitoriosa, alegre e útil do mim, eis a difícil tarefa do homem,porque o eu se alimenta dos disfarces do mim e parece só saber viver quando o recalca, deprime ou afoga.
O eu é a flor, fruto, copa.
O mim é semente.
Sempre sumida, a cada nascimento.
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