domingo, 5 de outubro de 2008

O Carrasco do Amor de Irvin D. Yalom _ uma compilação do 4º Cap.





Uma importante característica do luto parental é a perda do significado da vida.
Perder um dos pais ou um amigo antigo geralmente é perder o passado:
a pessoa que morreu pode ser a única testemunha viva dos eventos dourados de muito tempo atrás.
Mas perder um filho é perder o futuro:
o que é perdido não é nada menos que o projeto de vida da pessoa aquilo pelo que a pessoa vive,
a maneira pela qual se projeta no futuro, o modo pelo qual a pessoa pode esperar transcender a morte (na verdade, o filho se torna o projeto de imortalidade).
Dessa forma, em linguagem profissional, a perda dos pais é uma "perda de objeto"
(o "objeto" sendo a figura que desempenhou um papel instrumental importante na constituição do mundo interno da pessoa),
ao passo que a perda do filho é uma "perda de projeto"
(a perda do princípio organizador central da vida de alguém, que proporciona não apenas
o porquê mas também o como da vida).
Não é difícil entender por que a perda de um filho é, de todas, a mais difícil de suportar, por que muitos pais continuam enlutados passados cinco anos, por que alguns jamais se recuperam. O sentimento de que a pessoa "deveria ter feito mais" reflete, me parece, um desejo subjacente de controlar o incontrolável. Afinal de contas, se alguém sente culpa por não ter feito alguma coisa que deveria ter feito, existe, conseqüentemente, algo que poderia ter sido feito — um pensamento confortador que nos ilude em relação ao nosso patético desamparo perante a morte. Encerrados numa elaborada ilusão de poder e de progresso ilimitados, cada um de nós se impõe, ao menos até a crise da meia-idade, a crença de que a existência consiste numa eterna espiral ascendente de realizações, que dependem apenas da vontade. Essa confortadora ilusão pode ser destruída por uma experiência súbita, irreversível, freqüentemente designada pelos filósofos como uma "experiência-limite". De todas as experiências limite, nenhuma nos confronta mais potencialmente com a finitude e a contingência (e nenhuma é mais capaz de produzir uma mudança pessoal dramática, imediata) do que a iminência da nossa própria morte. Uma outra experiência-limite imperativa é a morte de um outro ente significativo — um marido amado, uma esposa ou um amigo — que destrói a ilusão da nossa invulnerabilidade. Para a maioria das pessoas, a pior de todas as perdas é a morte de um filho. Nessa situação, a vida parece atacar em todas as frentes: os pais se sentem culpados e assustados por sua própria incapacidade de agir; ficam zangados pela impotência e aparente insensibilidade dos que prestam cuidados médicos; podem praguejar contra a injustiça de Deus ou do universo (muitos finalmente compreendem que a aparente injustiça é, na realidade, indiferença cósmica). Os pais enlutados são também, por analogia, confrontados com suas próprias mortes: eles não foram capazes de proteger um filho, e, como a noite se segue ao dia, eles compreendem a amarga verdade de que eles, por sua vez, não serão protegidos. "E, portanto", como escreveu John Donne, "jamais pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por você."
"precisamos aprender a viver com os vivos antes de podermos aprender a viver com os mortos".
De muitas maneiras, os irmãos sobreviventes do filho que morre, sofrem, porque grande parte da energia dos pais continua dirigida ao filho morto, que é tanto relembrado quanto idealizado. Alguns filhos sobreviventes ficam cheios de ressentimentos em relação ao irmão morto, pelo tempo e energia que ele demanda dos pais; com freqüência, o ressentimento existe concomitantemente à própria tristeza e à própria compreensão do dilema dos genitores.
Tal combinação é uma fórmula perfeita para promover a culpa no irmão sobrevivente e um sentimento de desvalorização e maldade. Outro cenário possível, consiste em os pais terem imediatamente um outro filho, um filho substituto. Muitas vezes as circunstâncias favorecem esse fato, mas às vezes mais problemas são criados do que resolvidos. Primeiro, isso pode prejudicar o relacionamento com os filhos sobreviventes. Além disso, o filho substituto também sofre, especialmente se a tristeza dos pais continua não resolvida. Crescer carregando as esperanças dos pais de que devemos cumprir os objetivos não realizados de suas vidas já é bastante duro, mas a carga adicional de abrigar o espírito de um irmão morto pode esmagar o
delicado processo de formação da identidade. Outra situação comum de ocorrer, é a superproteção dos pais em relação aos filhos sobreviventes. Os pais passam a ter medo quando os filhos se ausentam. O fim do casamento também é muito comum nas famílias que perderam um filho. As pesquisas demonstram que, contrariamente à expectativa de que a tragédia da morte de uma criança possa unir a família, muitos pais enlutados relatam uma crescente discórdia conjugal. Marido e mulher fazem o luto de maneiras diferentes — de fato, diametralmente opostas; marido e mulher são muitas vezes incapazes de compreender e apoiar um ao outro; o luto de um cônjuge interfere ativamente no luto do outro, provocando atrito, alienação e eventual separação. Os estereótipos masculino-feminino muitas vezes são verdadeiros nessa situação. Muitas mulheres, precisam ir além da expressão repetitiva de sua perda e voltar a se comprometer com os vivos, com projetos, com tudo que possa trazer significado às suas vidas. Os homens geralmente precisam ser ensinados a experimentar e a compartilhar a sua tristeza (em vez de suprimi-la e fugir dela)..
Irvin D. Yalom
O Carrasco do Amor
Cap 4
Morreu o filho errado

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