Em cima dos meus 1,54 cm de pretensão, gostaria muito de ter conhecido Carl Gustav Jung. Um grande homem que deixou um legado incontestável à humanidade.
Nos últimos tempos tenho me debatido muito com a questão das crenças, da fé, que eu já tive em excesso e hoje não tenho nenhuma. Lendo Resposta a Jó, consegui espargir alguma luz sobre a minha escuridão num trechinho curto, mas que foi muito elucidativo às minhas questões.
" O Apocalipse que se acha no final do Novo Testamento se projeta para um futuro quase ao nosso alcance, com todos os seus terrores apocalípticos. A decisão tomada em um momento impensado por uma cabeça herostrática* (Heróstrates que destruiu o templo de Artemis em Éfeso, no ano de 365 aC., para perpetuar a memória do próprio nome.), pode muito bem bastar para desencadear a catástrofe universal. O fio do qual pende o nosso destino adelgaçou-se. Não foi a natureza, mas o "gênio da humanidade", que prendeu a si a corda com a qual poderá enforcar-se a qualquer momento". Esta: é apenas uma variação do que João queria dizer com a expressão "ira de Deus", (se de fato é ele o autor das Cartas, como admito de minha parte) quando se viu confrontado com o duplo aspecto de Deus.
Quando alguém, se vê confrontado com um conceito paradoxal de Deus e ao mesmo tempo avalia, na sua qualidade de indivíduo religioso, todo o alcance do problema, encontra-se em situação idêntica à do autor do Apocalipse que podemos imaginar ser um cristão convicto. Sua possível identidade com o João das Cartas nos revela toda a agudeza da contradição: Como é que ele enfrenta a contradição insustentável que existe no interior da divindade?
A natureza paradoxal de Deus divide o homem em seus contrários e o deixa entregue a um conflito aparentemente sem solução. Que acontece, então, num estado como este? Aqui a palavra deve ser deixada à psicologia, pois esta constitui a soma de todas as observações e conhecimentos que recolheu acerca da experiência dos estados de conflitos agudos.
Há, p. ex., choques de deveres que ninguém sabe como solucionar. A consciência sabe apenas que "tertíum non datur" [não há um terceiro termo]!
Por isso o médico aconselha a seus pacientes que esperem para ver se o inconsciente não produz algum sonho que proponha um terceiro termo irracional, e, conseqüentemente, imprevisto e não esperado, como solução. Como nos ensina a experiência, nos sonhos afloram realmente símbolos de natureza unificante. Nestes sonhos trata-se sempre da união do lado claro com o lado sombrio. Não foi sem razão que precisei chegar aos 76 anos de idade para compreender a natureza das "idéias supremas" que determinam nosso comportamento ético, o que é de imensa importância para a vida prática.
Todas estas dominantes culminam no conceito positivo ou negativo de Deus. A conciliação dos contrários já se acha indicada no simbolismo do destino de Cristo, a cena da crucificação, onde o mediador está suspenso entre dois malfeitores, um dos quais sobe ao paraíso e o outro desce ao inferno. Não poderia ser de outro modo: o contraste, segundo a visão cristã, devia situar-se entre Deus e o homem, contraste em que este último corria o risco de ser identificado com o lado tenebroso da existência.
Este Deus age através do inconsciente do homem, obrigando-o a unir e harmonizar as influências contrárias permanentes, às quais sua consciência está submetida. O inconsciente pretende ambas as coisas: separar e unir. É por isso que o homem, em suas tentativas de unificação, pode sempre contar com a ajuda de um defensor metafísíco, como Jó o vira claramente. O inconsciente quer introduzir-se na consciência, a fim de poder chegar à luz, mas, ao mesmo tempo, é impedido em tal desígnio, porquanto prefere permanecer inconsciente. 2. O conceito de Deus enquanto idéia que exprime uma totalidade universal inclui igualmente o inconsciente, em oposição, portanto, à consciência, e também à psique, que perturba com tanta freqüência as intenções e as vontades da consciência. A oração, p. ex., fortalece o potencial do ínconscíeite, dai seus efeitos inesperados
Como nosso modo de vida dificilmente pode comparar-se ao do cristão primitivo João, qualquer tipo de bem pode irromper em nós ao lado do mal, principalmente no que se refere ao amor. Por isso não contamos com a presença de uma vontade de destruição tão pura como a que havia em João. Em minha experiência jamais observei coisa igual, com exceção de certas psicoses agudas e obsessões de tipo criminoso. Naturalmente, nosso relativo negror de nada nos serve. Ele atenua, é verdade, o choque das forças malignas, mas, por outro lado, nos expõe a elas e nos torna incapazes de lhes resistir. É por isso que precisamos de mais luz, de bondade e de força moral, e devemos remover nosso negrume anti-higiênico da melhor forma possível, pois senão careceríamos de condições para aceitar e, ao mesmo tempo, agüentar, sem perecermos, o Deus tenebroso que também quer tornar-se homem.

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