sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O que desejamos



O que desejamos
Não, não tenho o direito de esperar que sejas
como a chuva intensa que cai.
Ou como a fúria do mar que vem de encontro à areia:
Todavia, te agradecerei, e muito, se e quando fores
a gota tamborilando na vidraça, ou a lágrima tranquila
que chorar comigo, as minhas dores e as minhas mágoas.
Seria atrevimento meu, esperar que me trouxesses tantas
e tantas flores, no entanto, beijar-te-ei, reconhecido,
as mãos se, nelas, tiveres trazido para mim uma simples e
pequena pétala que terá consigo um pouco de teu perfume
Ou que guardarei, mesmo que seca,
Com toda a minha saudade
No meu livro de prece e recordação.
Realmente, não mereço que sonhes comigo
Nem te prometo que sonharei contigo,
Conta, porém, com o meu reconhecimento
Com toda a gratidão de que sou capaz
Se me acordares em meu pesadelo,
Se me mostrares que o sonho mau acabou!
Sei que não te verei entre os que me
aplaudem,
Até porque frequentemente
Os vivas são insinceros e interesseiros,
Sou feliz, entretanto, em ter a certeza
De que te porás a meu lado, de que
ficarás junto de mim,
Quando a assuada me amedrontar,
Quando a vaia me fizer tremer,
Quando todos me dirigirem insultos e apodos.
É possível que não nos convidemos, um ao outro,
Para a festa, para o banquete, para a reunião,
Sei, porém, que posso contar,
Não com a metade de tua ração que sobrar,
Mas com tudo aquilo que, no teu prato,
Souberes que é necessário para a minha fome.
É verdade que não povôo tuas inteiras lembranças,
Seria vã quimera, tola ilusão pretender isto,
Mas eu sei, e serenamente sorrio com isto,
Que, em tuas lembranças,
Há sempre um momento e um pequeno lugar para mim,
E isso vai muito além do que eu poderia merecer.
Não tenho como dar-te
Tudo aquilo que me pedes e que de fato mereces,
Emociona-me, porém, saber do grande valor que dás
Ao muito pouco, ou quase nada que te dou,
Teu reconhecimento tem valia muito maior
Do que o que eu te oferto,
Do que eu te faça chegar às mãos,
Tanto valorizas o que recebes
Que acabo sempre tendo mais do que te dei,
Tal é tua retribuição amiga
No sorriso que não tem preço
E na ternura que está acima de qualquer número ou grau.
Não podemos tributar, um ao outro,
Todos os minutos de toda uma vida,
Mas, nos minutos de cada vida,
Nos instantes de cada vida
De um de nós que vivemos na vida do outro,
Que se multiplicam por dois, por mil,
E não saberíamos viver sem conviver,
Existir sem coexistir,
Tanto que eu sou em ti
O mesmo que tu és em mim:
Vida da vida de cada um de nós vivida!
Não nos perguntaremos qual o tempo
Porque todo tempo é tempo,
Tanto que hoje é sempre,
E sempre é hoje,
Nele vivendo as esperanças, já em realização,
Do amanhã que continua
No para sempre e um dia
José Wanderley Dias


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