
Sobreviver às perdas é para quem tem coragem: Hoje falo das grandes perdas, já que das pequenas,
não faço mais conta. Perde-se hoje, ganha-se amanhã. Sobreviver às perdas, estas que chegam como as grandes tempestades, arrancando flores cheias de viço e perfume, folhas cheias de vida, frutos ainda verdes. Arrasando em segundos o que na maioria das vezes levou-se uma vida inteira para ser construído. Sobreviver à elas, é sómente para quem tem coragem, muita coragem. Coragem de olhar de frente as emoções "não tão bonitas" e tão contraditórias que afloram. Raiva: _ de quem se foi, de quem ficou, de nós mesmos, desespero, sentimento de fracasso, inveja, vergonha da dor...
Quando se passa por grandes perdas, é preciso também ter um certo cuidado com os relacionamentos. Sistema imunológico emocional baixo é perigo na certa! Para podermos sobreviver, tendemos a projetar em algo ou em alguém o sentimento que dedicávamos àquele(s) que perdemos.
e quando isso acontece, tudo fica mais complicado. É preciso então coragem redobrada, para levantar-se em meio aos escombros, catar os cacos do caos e refazer a alma, como se faz um mosaico. Com paciência, arte e muito amor. Morre a flor, morre o fruto, mas a semente continua viva.
Pedaço de mim
Chico Buarque
1977-1978
Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar
Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
Do membro que já perdi
Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Leva os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
Que não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus
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