
Uma Oração
Recuse-se a cair.
Se não puder se recusar a cair,recuse-se a ficar no chão.
Se não puder se recusar a ficar no chão,
eleve o coração aos céus e,
como um mendigo faminto,
peça que o encham,e ele será cheio.
Podem empurrá-lo para baixo.
Podem impedi-lo de se levantar.
Mas ninguém pode impedi-lo
de elevar seu coração aos céus - só você.
É no meio da aflição que tantas coisas ficam claras.
Quem diz que nada de bom resultou disso,
ainda não está escutando.
Clarissa Pinkola Estés
Quando acompanhamos o trabalho externo dos campos que ajudamos a semear, alguns campos vazios dentro de nós voltam a ser semeados. A força de vida ganha impulso e mais uma vez brota do solo. Acredito que é essa força imutável e cheia de fé que empurra todos os seres humanos para uma nova vida, não importa que fogo os tenha arrasado. Quando crescemos através das cinzas e do campo vazio do "si mesmo", somos testemunhas da restauração de uma pequena parte do Éden. As lições das nossas histórias , que foram moldadas pela dor, pela luta e pela esperança, mantém seu brilho, sua vida e seu espírito em mim. E através de mim, nos meus filhos, nos filhos dos meus filhos, e espero também, nos filhos deles. Perduram em cada campo vazio, e em cada um que assuma o seu papel diante da vida, que espere paciente, com fé, que a nova semente chegue e produza abundância, como de fato acontecerá. Tenho certeza de que em cada campo em pousio* novas vidas estão esperando para renascer. E o que é mais espantoso, essa nova vida virá, quer queiramos ou não. Podemos arrancá-la a cada vez, mas ela reenraizar-se-á e voltará a se fundar. Novas sementes chegarão com o vento e não pararão de chegar, dando muitas oportunidades para mudanças de sentimentos, para a volta do sentimento, para a cura do coração e afinal para uma nova opção pela vida. De tudo isso fica a certeza de que não pode morrer nunca, aquela força de fé (não crença) que já nasce dentro de nós, que é maior que nós, que chama as novas sementes para os lugares áridos, maltratados, abertos, para que possamos nos ressemear. Essa força, na sua insistência, na sua lealdade a nós, no seu amor por nós, nos seus meios, na maioria das vezes, misteriosos, que é maior, muito mais majestosa e muito mais antiga do que qualquer outra jamais conhecida. Entendo menos do que dei à minha família e à vida e muito mais do que me deram, amor, sabedoria, e asperezas sistemáticas que desgastaram as arestas brutas de algo promissoramente valioso e digno de ser polido em mim. Eles proporcionaram provas difíceis de muitos tipos, criando em mim um puro instinto e muito respeito pela sobrevivência, não dos mais fortes, mas dos mais sábios, dos mais devotados à vida, à terra, aos entes queridos, incluindo-se aqueles difíceis de serem amados e os que precisam de amor mais do que qualquer coisa. Através da vida que levei, aprendi o dom, a lição mais árdua de se aceitar, e a mais poderosa que conheço. Ou seja , o conhecimento, uma certeza absoluta de que a vida se repete, se renova, não importa quantas vezes seja apunhalada, descarnada, atirada ao chão, ferida, ridicularizada, ignorada, desprezada, desdenhada, torturada ou tornada indefesa. Sei que aqueles que sob certos aspectos e por algum tempo estão afastados da crença na própria vida acabam sendo os que perceberão que o Éden está por baixo do campo nú, que as sementes novas vão primeiro pra os lugares abertos e vazios, mesmo quando esse local é um coração de luto, uma mente torturada ou um espírito devastado. E que aquilo a que dedicamos nossos dias pode ser o mínimo do que fazemos, se não ompreendermos também que algo espera que a gente abra espaço para esse processo do espírito da semente, cheio de fé, que toca o solo nu e o torna rico de novo, para algo que paira perto de nós, algo que ama, e que espera que o terreno certo seja preparado para que ele possa se revelar. Estou certa de que, enquanto estivermos aos cuidados dessa força de fé, aquilo que pareceu morto não estará morto, aquilo que pareceu perdido também não estará mais perdido, aquilo que alguns alegaram ser impossível tornou-se nitidamente possível, e a terra que está sem cultivo está apenas descansando,à espera de que a semente venturosa chegue com o vento, com todas as bençãos de Deus.
E ela chegará.
"As estrelas lá em cima podem então brilhar sobre mais um pedacinho ínfimo de Éden reconquistado. Esse milagre da vida nova surgindo do terreno sem cultivo é uma história antiquíssima. Na Grécia antiga, Perséfone, a deusa virgem da terra, foi capturada e mantida por muito tempo no mundo subterrâneo. Durante esse período, sua mãe, a própria terra, sentia tanta falta do seu lindo espírito que se tornou árida, e um inverno permanente, frio e estéril caiu sobre a terra. Quando Perséfone foi afinal libertada das agruras do inferno, voltou para a terra com tanta alegria que cada passo do seu pé descalço que tocava o chão estéril fazia com que no mesmo instante uma faixa de verde e flores se espalhasse em todas as direções. O Jardineiro que tinha fé, de Clarrisa Pinkola Estés com algumas adaptações minhas.
*POUSIO = terra que está sem cultivo, está apenas descansando para que o solo se fortaleça.
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