quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Saga Ana



Tua flor, que eu particularmente acho "feia"?
Não! Feia não.
Mas não tão bonita.
Prefiro a Alamanda
Happy Birthday


Posso sentir na pele a chegada da noite.
Ainda está claro no resto do (mundo),
mas o ar que respiro é noturno.
Nas árvores que vejo à luz do dia,
o movimento das folhas já se revezou,
e é um movimento noturno;
como são noturnos certos cheiros e ruídos;
como há bichos noturnos
e flores que não se abrem de dia,
como há pensamentos tão claros
que só à noite se percebem ...
(Estorvo. Chico Buarque)


É bem capaz de ter eu dormido com o livro no colo.
Posso muito bem ter (re) ssonhado de novo.
Depois de certa idade, acho que o acervo de sonhos se esgota, e eles começam a reprisar.
A memória também enfraquece, e já não se tem certeza se sonhou-se ou não aquele sonho .
Adaptado (quase que copiado) de Estorvo do Chico Buarque
Happy Birthday
O Último que nós passamos juntas, brindamos simbolicamente com um frasco de quimioterapia!
Happy Birthday!
Hoje e sempre!



Assim como no Sagarana do Guimarães Rosa, também nós tivemos nossa Sarapalha, nossa Saga Ana.
Um profundo e sutil movimento de vida, morte, vida .
Duas personagens que nada tendo de filósofas ou filosóficas,
acabam mostrando a existência em sua multiplicidade de sofrimentos.
um mundo de reflexões existenciais dentro da simplicidade (e do fóda) do viver.
Indo muito mais além daquilo que é humano, daquilo que se vê.
A dor da finitude, a dor da proximidade da morte, onde a filosofia passa ao largo,
deixa para a vida em sua simplicidade, assim ... simples,
o que há de mais profundo de mais concreto da vida.
O viver!
O que é o viver?
O que é o Ser em sua plenitutude?
Quem é, o que é o Ser?
É a dor do abandono em um rio sem margens?
É o rio que faz nascer outras dores?
É o canto da dor, dos sofrimentos do ser humano?
É o canto da dor do abandono do amor?
Da própria vida que se esvai aos poucos?
Da dor da solidão, da dor do medo do silêncio?
É a vida sem pressa?
É o rio da vida dentro de outro rio?
É canto da dor dos abandonos?
Daqueles vividos e daqueles ainda estão por vir?
A natureza humana é um país que hospeda muitos imigrantes:
a insatisfação, o egoísmo, a saudade, o amor, o estoicismo, a incredulidade.
a tristeza, a crueldade., a covardia, o medo, a compaixão ...
Creio eu que o grau maior de amor que o Ser humano pode atingir é a compaixão.
Happy Birthday
O Haver
Vinicius de Moraes

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo-
Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidad
eDe não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo,
e esse medo infantil de ter pequenas coragens.





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