quinta-feira, 1 de novembro de 2007

“Por ter mergulhado no abismo
é que estou começando a amar
o abismo de que sou feita.”
(Clarice Lispector)


São sete horas da manhã
Vejo o Cristo, da janela
O sol apagou sua luz
E o povo lá embaixo espera
Nas filas dos pontos de ônibus
Procurando aonde ir
São todos seus cicerones
Correm pra não desistir
Dos seus salários de fome
É a esperança que eles têm
Nesse filme como extras
Todos querem se dar bem Estranho, teu Cristo, Rio
Que olha tão longe, além
Tem os braços sempre abertos
Mas sem proteger ninguém
Eu vou forrar as paredes
Do meu quarto de miséria
Com manchetes de jornal
Pra ver que não é nada sério
Eu vou dar o meu desprezo
Pra você que me ensinou
Que a tristeza é uma maneira
Da gente se salvar depois




Um trapiche é um lugar encantador para um espírito cansado das lutas da vida.
Existe um prazer misterioso em contemplar o movimento do mar.
Ora vomitando sobre si mesmo com violência.
Ora tranquilo, lambendo areia e pedras com languidez.
Busco encontrar a reserva onde há força de vida pulsante, dos que ainda têm a força do querer.
De desejar e de trabalhar criando espaços para que esta força de vida como uma onda de energia,
se expanda por todos os caminhos possíveis, permitindo-me reintegrar-me à vida. Os movimentos das ondas, num vai e vem rítmico, são como os meus movimentos internos. Mergulho no tempo e navego pelos anos, passo pelos dias e horas e vou observando as correntes. Revejo as naus que atravessaram o mar da minha vida. Algumas aportaram por um breve período, outras cruzaram a linha do horizonte, e se foram, seguindo outras direções. Tento resgatar as emoções naufragadas, fazendo um balanço das perdas e ganhos. Revendo as águas do meu mar que durante as tempestades foram remexidas demais. Trazendo tantos resíduos à tona. Vou seguindo, tentando resgatar das profundezas do mar de raivas e tristezas os castelos fortes, que não foram construídos sobre as areias das ilusões. Lançar a rede em busca de paz, para seguir em frente com mais calma e tranquilidade, como as águas do rio, que eu vejo desaguar tão tranquilas no mar. Verdade é que sem a experiência da noite escura em nossas vidas não há como tomarmos conhecimento da beleza das estrelas. Disse J. Krisnamurti:
"Não há nada que conduza à verdade.
Temos que navegar por mares sem roteiros para encontrá-la".


A prática de tonglen é um método para nos conectarmos com o sofrimento — nosso próprio sofrimento e o que nos rodeia onde quer que possamos ir. É um método que nos leva a superar nosso medo da dor e a dissolver a dureza de nosso coração. Acima de tudo, faz despertar a compaixão que é inerente a todos nós, não importa quanto possamos parecer cruéis ou frios. Se no entanto, não conseguimos realizar essa prática porque nos vemos frente a frente com nosso próprio medo, nossa resistência, raiva ou qualquer outro sofrimento pessoal que esteja presente, podemos mudar o foco e começar a praticar tonglen por aquilo que estamos sentindo e por milhares de pessoas que, como nós, naquele exato momento, sentem precisamente a mesma impotência e angústia. Então, inspiramos por aqueles que estão dominados pelas mesmas emoções e irradiamos alívio ou qualquer outra sensação que proporcione espaço para nós mesmos e para essas incontáveis pessoas.


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