Quando eu tiver partido
Quando eu tiver partido
não digas que me perdoaste:
o perdão, nesse caso, terá chegado tarde demais.
Não digas que não tolerarás
que eu tenha partido,
que não podes viver :
estando eu ausente:
se isso fosse verdade,
tu não deixarias que eu partisse ou até terias partido comigo.
Não cantes em solo
nem repitas no silêncio do bosque
as canções que escrevi para que as cantássemos os dois ...
Eu sofrerei demais, se o fizeres,
pois ouvirei o que estarás cantando
e não poderei responder-te em dueto
que é o nome da canção que te escrevi ...
Não é preciso que me defendas se alguém me agredir
quando eu tiver partido:
ausente, eu não poderei aspirar as flores nem sentir o gosto do arroz
que disseste que havias cozido para mim ...
Não tenhas medo:
minhas mágoas, se as tiver,
não as levarei muito longe comigo, mas atirá-las-eí no rio
para que nele se afoguem.
Também não deixarei os meus erros nem as minhas faltas
para atribular-te quando eu tiver partido;
se faltar a pira onde queimá-Ias,deixarei que a neve do olvido
sobre elas caia em avalanche sepultando-as para sempre
e para nunca mais!
Quando eu tiver partido,
acredita que eu teria ficado
se me houvesses pedido para fazê-Ia,
e, quando não fosse possível ficar,
porque o vento frio me haveria arrebatado,
eu teria deixado em tuas mãos
o calor reconhecido das minhas
ou até mesmo o meu beijo de agradecimento.
Eu não posso deter a marcha do tempo,
mas posso sonhar com a saudade,
e reanimar-me com a esperança
as duas paralelas das linhas do meu sonho
sonho de que eu nunca teria de partir,
e que continuarei a sonhar,
a imaginar que não parti,
mesmo depois de haver partido ...
Sabe, eu não me aflijo de todo
porque sei, sei profundamente,
que, mesmo quando eu tiver partido,
tu terás ficado comigo,
na recordação do caminho
que juntos palmilhamos
na certeza de que um dia compreenderás
que meu destino é o teu destino
e, orientada pelos meus soluços
e pelos meus ais,
tu virás sorrindo para meu encontro
porque, para confortar-me quando eu tiver partido,
só poderia existir o momento
em que tu também partirás rumo a mim ...
Rhámar l'Húmistan, tradução de José Wanderley Dias
Do livro: Ao Som Das Flautas De Bambu

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