Mostrando postagens com marcador José Wanderley Dias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador José Wanderley Dias. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Para os Que Realmente Passaram a Viver



Quando Eu Morrer ...
Para os Que Realmente Passaram a Viver
Não, eu não chorarei os meus mortos simplesmente porque
a morte não existe e a vida não pára, a vida continua!
Não, eu não me desesperarei ante o que chamam o eterno adeus:
eu sei que a morte é o parto da eternidade e, nela, a morte é que morrerá!
Não, eu não pensarei sequer que a saudade será algo feito para que eu pranteie,
para que eu deplore: pelo contrário.
Dentro da saudade haverá a esperança certeza de que um dia virá em que não mais será preciso ter saudade.
Não, eu não pensarei que a vida é o intervalo
entre duas datas escritas num pedaço de mármore com letras feita de flores...Eu não irei para os jazigos recitar fúnebres monólogos, compor frases perdidas que todas rimarão com nunca mais:ali, em silenciosa prece, eu me entregarei ao diálogo entre vidas que sabem que irão reunir-se um dia..Irei falar, é certo, de uma falta que não foi suprida, de uma ausência que não foi esquecida,mas, por isto mesmo, direi tranqüilo que o que parece despedida é apenas um até a vista um até para sempre e um dia...A tristeza não será desespero, o pranto não será sepultura, a lembrança tortura não será, porque, no fundo do ser,que espera, que confia, que acredita, há a crença total de que os olhos que se fecham para a treva abrir-se-ão de fato para a luz,de que o fim é apenas o começo real, de que a morte é a porta da ressurreição.O lenço que enxugará o meu pranto será todo feito de nuvens, além das quais existe a vida, vida que não vai para baixo do chão, vida que não se transforma em pó, vida que vivem os que para ela se foram não sabemos quanto tempo antes de nós,mas para a qual nos encaminhamos com a serenidade dos que sabem que não estão se despedindo, mas preparando o local e o momento em que o encontro feliz se dará!
Do livro "A Vida Passou Por Mim" de: Jose Wanderley Dias

“O que vale, a cada um de nós, é encararmos o nosso fim como não
sendo realmente o fim: é etapa a ser cumprida, meta a que atingiremos,
e que nos cumpre atingir bem.” (José Wanderley Dias).

Durante muito tempo acompanhei a coluna "A Vista do Meu Ponto" de José Wanderley Dias no jornal A Gazeta do Povo ... 

Escritor, advogado, jornalista e professor, José Wanderley Dias faleceu em 9 de julho de 1992, na região metropolitana de Belo Horizonte, em decorrência de grave acidente automobilístico, aos 67 anos, juntamente com sua esposa Neusa Maria Soares Dias, de 60 anos.


sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Quando eu tiver partido


Quando eu tiver partido

Quando eu tiver partido
não digas que me perdoaste:
o perdão, nesse caso, terá chegado tarde demais.
Não digas que não tolerarás
que eu tenha partido,
que não podes viver :
estando eu ausente:
se isso fosse verdade,
tu não deixarias que eu partisse ou até terias partido comigo.
Não cantes em solo
nem repitas no silêncio do bosque
as canções que escrevi para que as cantássemos os dois ...
Eu sofrerei demais, se o fizeres,
pois ouvirei o que estarás cantando
e não poderei responder-te em dueto
que é o nome da canção que te escrevi ...
Não é preciso que me defendas se alguém me agredir
quando eu tiver partido:
ausente, eu não poderei aspirar as flores nem sentir o gosto do arroz
que disseste que havias cozido para mim ...
Não tenhas medo:
minhas mágoas, se as tiver,
não as levarei muito longe comigo, mas atirá-las-eí no rio
para que nele se afoguem.
Também não deixarei os meus erros nem as minhas faltas
para atribular-te quando eu tiver partido;
se faltar a pira onde queimá-Ias,deixarei que a neve do olvido
sobre elas caia em avalanche sepultando-as para sempre
e para nunca mais!
Quando eu tiver partido,
acredita que eu teria ficado
se me houvesses pedido para fazê-Ia,
e, quando não fosse possível ficar,
porque o vento frio me haveria arrebatado,
eu teria deixado em tuas mãos
o calor reconhecido das minhas
ou até mesmo o meu beijo de agradecimento.
Eu não posso deter a marcha do tempo,
mas posso sonhar com a saudade,
e reanimar-me com a esperança
as duas paralelas das linhas do meu sonho
sonho de que eu nunca teria de partir,
e que continuarei a sonhar,
a imaginar que não parti,
mesmo depois de haver partido ...
Sabe, eu não me aflijo de todo
porque sei, sei profundamente,
que, mesmo quando eu tiver partido,
tu terás ficado comigo,
na recordação do caminho
que juntos palmilhamos
na certeza de que um dia compreenderás
que meu destino é o teu destino
e, orientada pelos meus soluços
e pelos meus ais,
tu virás sorrindo para meu encontro
porque, para confortar-me quando eu tiver partido,
só poderia existir o momento
em que tu também partirás rumo a mim ...
Rhámar l'Húmistan, tradução de José Wanderley Dias
Do livro: Ao Som Das Flautas De Bambu

quarta-feira, 17 de março de 2010

Haverá sempre um amanhã


Haverá sempre um amanhã

Por mais que os abismos sejam fundos,
sobre eles sempre haverá um firmamento;
não te desorientes se muitos são os gritos:
um dia far-se-á de novo silêncio
e conseguirás refletir melhor;
também não te afoites se o silêncio perdura;
quando chegar sua vez,
a palavras surgirão de novo
e entenderás a mensagem que te trarão...
Não temas a escuridão
que se faz quando passam nuvens de corvos,
eles terão de sair do céu
ou terão de descer à terra
e o sol voltará radioso a brilhar...
Não penses que a mentira dominará de todo:
ela mentirá até mesmo sobre si própria,
e seu descrédito tornará indispensável
que a verdade volte a ser reconhecida...
Nenhuma escuridão, por màis densa que seja,
conseguirá apagar a luz do vaga-lume;
não te entristeças se sentes frio:
sempre encontrarás a mão amiga
na qual aquecerás as tuas
que, assim, não se enregelarão...
Não receies o tropel dos animais:
um dia, e não está longe este dia,
ouvirás de novo a maciez
de pés descalços pisando sobre a relva...
A chuva voltará a cair
e o verde voltará ser verde,
por isto tua sede será aplacada um dia,
podes esperá-lo confiante...
Não temas sequer a morte:
ainda não se descobriu um cemitério de almas,
já que estas vivem para sempre...
Não penses que o infinito não te fale:
talvez ele esteja atento a ouvir-te
e não queira perder uma só de tuas palavras...
Não penses que estás irremediavelmente condenado:
o perdão existe exatamente para quem erra,
mas que deseja voltar ao caminho,
Se teus pés fraquejam,
busca quem te auxilie:
reconfortado, um dia chegará a tua vez de auxiliar...
Não chores de amargura
se o dia de hoje é tenso, incerto, amargo:
haverá sempre, sempre um amanhã...
José Wanderley Dias 
Do livro:
Ao Som Das Flautas De Bambu

quarta-feira, 17 de junho de 2009

À Vista do Meu Ponto _ Coluna de José Wanderley Dias




A Morte é a grande pergunta e grande resposta de todos os credos!
Para os Que Realmente Passaram a Viver
Não, eu não chorarei os meus mortos simplesmente porque a morte não existe e a vida não pára, a vida continua!Não, eu não me desesperarei ante o que chamam o eterno adeus:eu sei que a morte é o parto da eternidade e, nela, a morte é que morrerá!Não, eu não pensarei sequer que a saudade será algo feito para que eu pranteie, para que eu deplore: pelo contrário.Dentro da saudade haverá a esperança certeza de que um dia virá em que não mais será preciso ter saudade.Não, eu não pensarei que a vida é o intervalo entre duas datas escritas num pedaço de mármore com letras feita de flores...Eu não irei para os jazigos recitar fúnebres monólogos, compor frases perdidas que todas rimarão com nunca mais:ali, em silenciosa prece, eu me entregarei ao diálogo entre vidas que sabem que irão reunir-se um dia..Irei falar, é certo, de uma falta que não foi suprida, de uma ausência que não foi esquecida,mas, por isto mesmo, direi tranqüiloque o que parece despedida é apenas um até a vista um até para sempre e um dia...A tristeza não será desespero, o pranto não será sepultura, a lembrança tortura não será, porque, no fundo do ser,que espera, que confia, que acredita, há a crença total de que os olhos que se fecham para a treva abrir-se-ão de fato para a luz,de que o fim é apenas o começo real, de que a morte é a porta da ressurreição.O lenço que enxugará o meu pranto será todo feito de nuvens, além das quais existe a vida, vida que não vai para baixo do chão,vida que não se transforma em pó, vida que vivem os que para ela se foram não sabemos quanto tempo antes de nós,mas para a qual nos encaminhamos com a serenidade dos que sabem que não estão se despedindo, mas preparando o local e o momento em que o encontro feliz se dará!Do livro "A Vida Passou Por Mim" de: Jose Wanderley Dias
Durante muitos anos acompanhei a coluna "À Vista do Meu Ponto " de José Wanderley Dias, no jornal A Gazeta do Povo, que era então o elo de ligação entre eu e Curitiba. José Wanderley Dias faleu pouco tempo depois de ter escrito esta crônica.