domingo, 2 de outubro de 2016

A Tua Morte em Mim




A Tua Morte em Mim

A tua morte é sempre nova em mim.
Não amadurece. Não tem fim.
Se ergo os olhos dum livro, de repente
tu morreste.
Acordo, e tu morreste.
Sempre, cada dia, cada instante,
a tua morte é nova em mim,
sempre impossível.

E assim, até à noite final 
irás morrendo a cada instante 
da vida que ficou fingindo vida. 
Redescubro a tua morte como outros 
descobrem o amor, 
porque em cada lugar, cada momento, 
tu estás viva. 

Viverei até à hora derradeira a tua morte. 
Aos goles, lentos goles. Como se fosse 
cada vez um veneno novo. 
Não é tanto a saudade que dói, mas o remorso. 
O remorso de todo o perdido em nossa vida, 
coisas de antes e depois, coisas de nunca, 
palavras mudas para sempre, um gesto 
que sem remédio jamais teve destino, 
o olhar que procura e nunca tem resposta. 

O único presente verdadeiro é teres partido. 

Adolfo Casais Monteiro, in 'O Estrangeiro Definitivo'

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