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terça-feira, 1 de novembro de 2016

SONETO DE JÓ




SONETO DE JÓ

“Este grito que é rio amargo choro
que não é meu apenas, mas de todos
que o filtro das insônias decantou,
ouve-o, senhor, que é grito de infelizes.
Perdi-me e te procuro pela névoa
no céu em fogo, no calado mar,
a teus pés volto. 
Faça-se o que queres.
Tanto me destes que por mais que tires
sempre me resta do que tu me destes.
Deus necessita do perdão dos homens
e é esse perdão que venho te trazer.
Com o coração rasgado mais ao alto,
Senhor Te entrego os filhos que levastes
pelo amor dos filhos que ficaram”.

Odilo da Costa Filho

Soneto de Ausência


Soneto de Ausência.

“Não te ter ao meu lado dói-me fundo
na alma e no corpo como se rasgada
me fosse a carne ou se no mar profundo
tivesse a luz da vida mergulhada.
Só por teus olhos vejo e, assim, perdida 
tua presença, a cor mais violenta,
no amargor das neblinas escondidas,
cega na terra a graça que a sustenta.
Se no mercado indígena africano
acho em frutas e agentes o sabor
das manhãs do outro lado do Oceano
quando era adolescente o nosso amor
mais fere a tua ausência que eu
não tenho olhar quando me falta o teu”.

Odylo da Costa Filho

MEU FILHO, MEU FILHO



“As árvores na estrada
meu filho, meu filho
As estrelas da noite
e tuas mãos geladas
Mas de repente somes
levado pelo vento
não tardas a voltar
sepulto num soluço
que no pudor se esconde
A presença incorpórea
tem cabelos e risos
Teus olhos me olham fundo
do centro da escuridão
A presença incorpórea
é lâmina precisa
que não me traz a morte
antes me curva à vida
Em todas as viagens
– e muitas haverá até a derradeira – 
ter-te ao meu lado sempre
meu filho, meu filho”.

A Meu Filho



“Recorro a ti para não separar-me
 deste chão de sargaços mais de flores,
 onde os bichos que amastes mais o frutos
 que em tuas mãos plantavas e colhias.
 Por essas mãos te peço que me ajudes
 e que afastes de mim com dentes alvos do teu riso 
contido mais presente
a tentação da morte voluntária.
Não deixes, filho meu, que a dor de amar-te
 me tire o gosto do terreno barro
 e a coragem dos lúcidos deveres.
 Que estas árvores guardem no céu puro,
 entre rastros de estrelas e lembranças
 dos teus humanos olhos deslumbrados”.

Odylo da Costa Filho
Publicado em Cantiga Incompleta, 1971

“Odylo não foi sempre um poeta em exercícios constantes. Tão esporadicamente atendia aos chamados da grande Musa, que chegou a ser incluso, por Manuel Bandeira, na Antologia dos Poetas Bissextos. A partir de 1963, é que, levado “por circunstâncias dolorosas”, entrega-se inteira/intensamente ao labor/lavor poético, produzindo o que o mesmo Manuel Bandeira viria a considerar “os mais belos poemas da poesia de língua portuguesa”. Instado pela dolorosa (e trágica) perda de um filho adolescente (Odylinho), portador do seu nome, o poeta concebe e dá à luz, nessa imensa dor, as mais sublimes joias poéticas, que tão bem fazem jus à classificação do mestre Bandeira”.