terça-feira, 1 de novembro de 2016

A Meu Filho



“Recorro a ti para não separar-me
 deste chão de sargaços mais de flores,
 onde os bichos que amastes mais o frutos
 que em tuas mãos plantavas e colhias.
 Por essas mãos te peço que me ajudes
 e que afastes de mim com dentes alvos do teu riso 
contido mais presente
a tentação da morte voluntária.
Não deixes, filho meu, que a dor de amar-te
 me tire o gosto do terreno barro
 e a coragem dos lúcidos deveres.
 Que estas árvores guardem no céu puro,
 entre rastros de estrelas e lembranças
 dos teus humanos olhos deslumbrados”.

Odylo da Costa Filho
Publicado em Cantiga Incompleta, 1971

“Odylo não foi sempre um poeta em exercícios constantes. Tão esporadicamente atendia aos chamados da grande Musa, que chegou a ser incluso, por Manuel Bandeira, na Antologia dos Poetas Bissextos. A partir de 1963, é que, levado “por circunstâncias dolorosas”, entrega-se inteira/intensamente ao labor/lavor poético, produzindo o que o mesmo Manuel Bandeira viria a considerar “os mais belos poemas da poesia de língua portuguesa”. Instado pela dolorosa (e trágica) perda de um filho adolescente (Odylinho), portador do seu nome, o poeta concebe e dá à luz, nessa imensa dor, as mais sublimes joias poéticas, que tão bem fazem jus à classificação do mestre Bandeira”. 

Para os Que Realmente Passaram a Viver



Quando Eu Morrer ...
Para os Que Realmente Passaram a Viver
Não, eu não chorarei os meus mortos simplesmente porque
a morte não existe e a vida não pára, a vida continua!
Não, eu não me desesperarei ante o que chamam o eterno adeus:
eu sei que a morte é o parto da eternidade e, nela, a morte é que morrerá!
Não, eu não pensarei sequer que a saudade será algo feito para que eu pranteie,
para que eu deplore: pelo contrário.
Dentro da saudade haverá a esperança certeza de que um dia virá em que não mais será preciso ter saudade.
Não, eu não pensarei que a vida é o intervalo
entre duas datas escritas num pedaço de mármore com letras feita de flores...Eu não irei para os jazigos recitar fúnebres monólogos, compor frases perdidas que todas rimarão com nunca mais:ali, em silenciosa prece, eu me entregarei ao diálogo entre vidas que sabem que irão reunir-se um dia..Irei falar, é certo, de uma falta que não foi suprida, de uma ausência que não foi esquecida,mas, por isto mesmo, direi tranqüilo que o que parece despedida é apenas um até a vista um até para sempre e um dia...A tristeza não será desespero, o pranto não será sepultura, a lembrança tortura não será, porque, no fundo do ser,que espera, que confia, que acredita, há a crença total de que os olhos que se fecham para a treva abrir-se-ão de fato para a luz,de que o fim é apenas o começo real, de que a morte é a porta da ressurreição.O lenço que enxugará o meu pranto será todo feito de nuvens, além das quais existe a vida, vida que não vai para baixo do chão, vida que não se transforma em pó, vida que vivem os que para ela se foram não sabemos quanto tempo antes de nós,mas para a qual nos encaminhamos com a serenidade dos que sabem que não estão se despedindo, mas preparando o local e o momento em que o encontro feliz se dará!
Do livro "A Vida Passou Por Mim" de: Jose Wanderley Dias

“O que vale, a cada um de nós, é encararmos o nosso fim como não
sendo realmente o fim: é etapa a ser cumprida, meta a que atingiremos,
e que nos cumpre atingir bem.” (José Wanderley Dias).

Durante muito tempo acompanhei a coluna "A Vista do Meu Ponto" de José Wanderley Dias no jornal A Gazeta do Povo ... 

Escritor, advogado, jornalista e professor, José Wanderley Dias faleceu em 9 de julho de 1992, na região metropolitana de Belo Horizonte, em decorrência de grave acidente automobilístico, aos 67 anos, juntamente com sua esposa Neusa Maria Soares Dias, de 60 anos.




A mulher e o seu menino

Mulher de pedra,
que é do menino
que houve em teu doce
braço divino,
_ nesse teu braço
que ainda está preso,
plácido e curvo,
à eterna ideia
de um vago peso?
"Vento do tempo
me estremeceu:
ele era pedra
da minha pedra,
mas nunca soube
se era bem meu.
Vento do tempo
passou por mim:
foi-se o menino,
deixou-me assim.
Foi sem palavras.
Tão pequenino,
que ia falar?
Talvez soubesse
para onde é que ia...
Eu não conheço
senão meu peito:
há outro lugar?
Tem vindo coisas:
não sei que são.
Coisas que cantam,
coisas que brilham.
Mas ele, não.
E era tão feito
só de ficar
que, embora longe,
sinto-o comigo:
meu braço é sempre
sua cadeira,
todo o meu corpo
seu espaldar."
Mulher de pedra,
que é do menino?
"Vento do tempo
quebrou meu seio
para o arrancar.
A mim, deixou-me.
A ele, levou-o.
(Há algum lugar?)
Desde o Princípio,
comigo vinha.
Meu nascimento
nele nasceu.
Foi-se _ por onde? _
tudo que eu tinha.
Ele era pedra
da minha pedra,
porém é certo
que nunca soube
se era bem meu..."
Cecília Meireles

Catando os cacos do caos

Catar os cacos do caos
como quem cata no deserto
o cacto
- como se fosse flor.
Catar os restos e ossos
da utopia
como de porta em porta
o lixeiro apanha
detritos da festa fria
e pobre no crepúsculo
se aquece na fogueira erguida
com os destroços do dia.
Catar a verdade contida
em cada concha de mão,
como o mendigo cata as pulgas
no pêlo
- do dia cão.
Recortar o sentido
como o alfaiate-artista,
costurá-lo pelo avesso
com a inconsútil emenda
à vista.
Como o arqueólogo
reunir os fragmentos,
como se ao vento
se pudessem pedir as flores
despetaladas no tempo.
Catar os cacos de Dionisio
e Baco, no mosaico antigo
e no copo seco erguido
beber o vinho
ou sangue vertido.
Catar os cacos de Orfeu partido
pela paixão das bacantes
e com Prometeu refazer
o fígado
- como era antes.
Catar palavras cortantes
no rio do escuro instante
e descobrir nessas pedras
o brilho do diamante.
É um quebra-cabeça?
Então
de cabeça quebrada vamos
sobre a parede do nada
deixar gravada a emoção
Cacos de mim
Cacos do não
Cacos do sim
Cacos do antes
Cacos do fimNão é dentro
nem fora
embora seja dentro e fora
no nunca e a toda hora
que violento
o sentido nos deflora.
Catar os cacos
do presente e outrora
e enfrentar a noite
com o vitral da aurora.

Affonso Romano de Sant'Anna


domingo, 2 de outubro de 2016

A Tua Morte em Mim




A Tua Morte em Mim

A tua morte é sempre nova em mim.
Não amadurece. Não tem fim.
Se ergo os olhos dum livro, de repente
tu morreste.
Acordo, e tu morreste.
Sempre, cada dia, cada instante,
a tua morte é nova em mim,
sempre impossível.

E assim, até à noite final 
irás morrendo a cada instante 
da vida que ficou fingindo vida. 
Redescubro a tua morte como outros 
descobrem o amor, 
porque em cada lugar, cada momento, 
tu estás viva. 

Viverei até à hora derradeira a tua morte. 
Aos goles, lentos goles. Como se fosse 
cada vez um veneno novo. 
Não é tanto a saudade que dói, mas o remorso. 
O remorso de todo o perdido em nossa vida, 
coisas de antes e depois, coisas de nunca, 
palavras mudas para sempre, um gesto 
que sem remédio jamais teve destino, 
o olhar que procura e nunca tem resposta. 

O único presente verdadeiro é teres partido. 

Adolfo Casais Monteiro, in 'O Estrangeiro Definitivo'

Na hora de pôr a mesa, éramos cinco




Na hora de pôr a mesa, éramos cinco: 
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs 
e eu. depois, a minha irmã mais velha 
casou-se. depois, a minha irmã mais nova 
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje, 
na hora de pôr a mesa, somos cinco, 
menos a minha irmã mais velha que está 
na casa dela, menos a minha irmã mais 
nova que está na casa dela, menos o meu 
pai, menos a minha mãe viúva. cada um 
deles é um lugar vazio nesta mesa onde 
como sozinho. mas irão estar sempre aqui. 
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco. 
enquanto um de nós estiver vivo, seremos 
sempre cinco. 

José Luís Peixoto, in 'A Criança em Ruínas'


sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Quando eu tiver partido


Quando eu tiver partido

Quando eu tiver partido
não digas que me perdoaste:
o perdão, nesse caso, terá chegado tarde demais.
Não digas que não tolerarás
que eu tenha partido,
que não podes viver :
estando eu ausente:
se isso fosse verdade,
tu não deixarias que eu partisse ou até terias partido comigo.
Não cantes em solo
nem repitas no silêncio do bosque
as canções que escrevi para que as cantássemos os dois ...
Eu sofrerei demais, se o fizeres,
pois ouvirei o que estarás cantando
e não poderei responder-te em dueto
que é o nome da canção que te escrevi ...
Não é preciso que me defendas se alguém me agredir
quando eu tiver partido:
ausente, eu não poderei aspirar as flores nem sentir o gosto do arroz
que disseste que havias cozido para mim ...
Não tenhas medo:
minhas mágoas, se as tiver,
não as levarei muito longe comigo, mas atirá-las-eí no rio
para que nele se afoguem.
Também não deixarei os meus erros nem as minhas faltas
para atribular-te quando eu tiver partido;
se faltar a pira onde queimá-Ias,deixarei que a neve do olvido
sobre elas caia em avalanche sepultando-as para sempre
e para nunca mais!
Quando eu tiver partido,
acredita que eu teria ficado
se me houvesses pedido para fazê-Ia,
e, quando não fosse possível ficar,
porque o vento frio me haveria arrebatado,
eu teria deixado em tuas mãos
o calor reconhecido das minhas
ou até mesmo o meu beijo de agradecimento.
Eu não posso deter a marcha do tempo,
mas posso sonhar com a saudade,
e reanimar-me com a esperança
as duas paralelas das linhas do meu sonho
sonho de que eu nunca teria de partir,
e que continuarei a sonhar,
a imaginar que não parti,
mesmo depois de haver partido ...
Sabe, eu não me aflijo de todo
porque sei, sei profundamente,
que, mesmo quando eu tiver partido,
tu terás ficado comigo,
na recordação do caminho
que juntos palmilhamos
na certeza de que um dia compreenderás
que meu destino é o teu destino
e, orientada pelos meus soluços
e pelos meus ais,
tu virás sorrindo para meu encontro
porque, para confortar-me quando eu tiver partido,
só poderia existir o momento
em que tu também partirás rumo a mim ...
Rhámar l'Húmistan, tradução de José Wanderley Dias
Do livro: Ao Som Das Flautas De Bambu


Benção da Mãe Abençoada

do livro:Libertem a Mulher Forte
de: Clarissa Pinkola Estés ,PhD

Esta é minha prece por, para e sobre a tua cabeça...
Nós te elevamos para que tua alma seja vista pela Mãe de Misericórdia,
Ela, que espia por vãos, vê através de fendas e nos cantos onde as almas 
costumam se esconder, em busca de refúgio.
Ela, que é o Coração Imaculado, te vê facilmente,
te acollhe com carinho, se lembra de ti com amor,
pois ela é
Espelho dos Céus,
Torre de Marfim,
Lâmina de Obsidiana,
Estrela das Águas,
Trono de Sabedoria...

Nós te elevamos para que a Mãe abençoada veja
tudo do que precisas agora,
para produzir bondade e contentamento,
cura e saúde,
compreensão e amor,
- para ti e teus entes queridos -
de todas as formas possíveis.

E, especialmente, especialmente, que tudo isso te seja dado
do modo mais fácil para que vejas e entendas...

do mod que te permita fazer bom proveito de imediato.

Nós te elevamos porque foste tecido
no ventre de tua mãe terrena por Alguém Maior...
não apenas nascendo já abençoado...
mas também nascendo como uma benção para todos nós...

Não te esqueças disso,
pois nós não nos esquecemos de ti.
Nem te esquece nunca tua Mãe Maior.

Que avances por este dia adentro,
tanto profundamente abençoado
como abençoando os outros
com a magnitude do amor de Nossa Mãe Sagrada.

Amém

... que na língua antiga quer dizer: Que assim seja.

O que desejamos



O que desejamos
Não, não tenho o direito de esperar que sejas
como a chuva intensa que cai.
Ou como a fúria do mar que vem de encontro à areia:
Todavia, te agradecerei, e muito, se e quando fores
a gota tamborilando na vidraça, ou a lágrima tranquila
que chorar comigo, as minhas dores e as minhas mágoas.
Seria atrevimento meu, esperar que me trouxesses tantas
e tantas flores, no entanto, beijar-te-ei, reconhecido,
as mãos se, nelas, tiveres trazido para mim uma simples e
pequena pétala que terá consigo um pouco de teu perfume
Ou que guardarei, mesmo que seca,
Com toda a minha saudade
No meu livro de prece e recordação.
Realmente, não mereço que sonhes comigo
Nem te prometo que sonharei contigo,
Conta, porém, com o meu reconhecimento
Com toda a gratidão de que sou capaz
Se me acordares em meu pesadelo,
Se me mostrares que o sonho mau acabou!
Sei que não te verei entre os que me
aplaudem,
Até porque frequentemente
Os vivas são insinceros e interesseiros,
Sou feliz, entretanto, em ter a certeza
De que te porás a meu lado, de que
ficarás junto de mim,
Quando a assuada me amedrontar,
Quando a vaia me fizer tremer,
Quando todos me dirigirem insultos e apodos.
É possível que não nos convidemos, um ao outro,
Para a festa, para o banquete, para a reunião,
Sei, porém, que posso contar,
Não com a metade de tua ração que sobrar,
Mas com tudo aquilo que, no teu prato,
Souberes que é necessário para a minha fome.
É verdade que não povôo tuas inteiras lembranças,
Seria vã quimera, tola ilusão pretender isto,
Mas eu sei, e serenamente sorrio com isto,
Que, em tuas lembranças,
Há sempre um momento e um pequeno lugar para mim,
E isso vai muito além do que eu poderia merecer.
Não tenho como dar-te
Tudo aquilo que me pedes e que de fato mereces,
Emociona-me, porém, saber do grande valor que dás
Ao muito pouco, ou quase nada que te dou,
Teu reconhecimento tem valia muito maior
Do que o que eu te oferto,
Do que eu te faça chegar às mãos,
Tanto valorizas o que recebes
Que acabo sempre tendo mais do que te dei,
Tal é tua retribuição amiga
No sorriso que não tem preço
E na ternura que está acima de qualquer número ou grau.
Não podemos tributar, um ao outro,
Todos os minutos de toda uma vida,
Mas, nos minutos de cada vida,
Nos instantes de cada vida
De um de nós que vivemos na vida do outro,
Que se multiplicam por dois, por mil,
E não saberíamos viver sem conviver,
Existir sem coexistir,
Tanto que eu sou em ti
O mesmo que tu és em mim:
Vida da vida de cada um de nós vivida!
Não nos perguntaremos qual o tempo
Porque todo tempo é tempo,
Tanto que hoje é sempre,
E sempre é hoje,
Nele vivendo as esperanças, já em realização,
Do amanhã que continua
No para sempre e um dia
José Wanderley Dias




O Lado Fatal XVI 

Levo meu amado no peito 
como quem carrega nos braços para sempre 
uma criança morta. 
Lya Luft

domingo, 1 de novembro de 2015

Tudo Tem Seu Sentido


A noite escura (da alma) pode ser um caminho de volta à vida. 
Ela reduz a vida a seus elementos essenciais e ajuda a pessoa a recomeçar.

En la tristeza pervive el mor

“Até que ponto sou livre?”
pergunta o homem ao seu Criador.

“Não posso despojar-me do meu corpo,
não posso renegar minhas origens,
não posso fugir do meu ambiente,
não posso escapar do meu tempo.”
“Tu não és livre de tuas condições,
responde Ele,
porém, tu és livre para te posicionares
diante de teus condicionamentos.
E isto é muito além do que jamais concedi.”

“Quando giro em torno de mim mesmo, percorro um caminho infinito,
que não leva a lugar algum.
Porém, ao distanciar-me de mim mesmo, percebo o caminho
para a pessoa que gostaria de ser.”

“Há uma responsabilidade diante de meus atos:
sou responsável pelo que faço, digo, decido...
Mas há também uma responsabilidade
pela maneira como os faço:
sou responsável pelo modo como vivo, amo e sofro...”

“O corpo não pode ser construído,
mas o mal-estar físico pode ser mitigado.
A alma não pode ser consertada,
mas o distúrbio psíquico pode ser curado.
O espírito não pode ser produzido,
mas a dimensão espiritual pode ser despertada.”
“O que é genuíno não pode ser desmoralizado,
o que não é mascarado não pode ser desmascarado,
o que tem sentido não pode ser questionado.”

“Um corpo estranho penetra na concha, ferindo-a.
A areia áspera machuca sua carne.
A concha sofre.
A concha tenta expelir o intruso e fracassa.
O grão de areia fixou-se.
A dor não pode ser eliminada.
Então o animal, a partir do âmago da sua natureza,
busca a força para transformar o sofrimento em triunfo.
Do sofrimento e da aflição,
da seiva de suas lágrimas, surge,
em longos processos de crescimento interior, a pérola.”
Textos retirados do livro
 “Tudo tem seu sentido”
Coleção Logoterapia
Elisabeth S. Lukas

terça-feira, 1 de março de 2011

Lya Luft e uma observação


Convite
"Não sou a areia onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola nas marés do mundo,
em cada praia resnascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha da vida, sou construção e desmoronamento, servo e senhor, e sou mistério.
A quatro mãos escrevemos este roteiro para o palco do meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos a sério.
" Lya Luft
 
Tem uma expressão que diz
"Grande dúvida, grande iluminação.
Pequena dúvida, pequena iluminação.
Nenhuma dúvida, nenhuma iluminação."
Precisamos da dúvida para rever conceitos,
e quanto maior a dúvida, maior a chance de transformação.
Quanto maior a retração, maior a expansão.
então:
Abençoada seja a dúvida

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Excertos & Divagações ...

Há momentos em que a vida não parece estar sendo vivida.
Nos sentimos passando pelos dias, ultrapassando as horas,
chegando ao fim de mais um dia, mas sem saber por que e para quê.
A vida parece provisória, imersa em sonhos impossíveis,
num eterno devaneio sobre aquele pote de ouro na ponta do arco-íris.
Li em algum lugar uma frase que é atribuída à Heráclito e que acho muito interessante:
Nada é permanente, a não ser a mudança.
E hoje é isso o que percebo:
_ Nada é permanente.
A nossa condição humana reflete a impermanencia.
Tudo muda à todo momento.
Em confissões de Santo Agostinho, IX,12 está escrito que:
A ferida emocional é real e muito pesada para ser levada sozinha.
Ter a capacidade de continuar e de dizer sim à vida, mesmo diante do golpe da perda.
A morte é o fim da presença física e não do relacionamento.
Querer esquecer e apagar é matar a quem se perdeu.
Certamente esta vivência da perda está tatuada em nosso ser,
mas poderá ser transformada em abençoada lembrança, que não será novamente perdida.
As lágrimas... elas descem e eu as deixo fluir como convém,
fazendo delas uma almofada para o meu coração.
Nelas, ele descansou.
No livro O Profeta de Khalil Gibran li o seguinte:
"Vossa alegria é vossa tristeza desmascarada.
E o mesmo poço que dá nascimento a vosso riso foi muitas vezes preenchido por vossas lágrimas.
E como poderia não ser assim?
Elas são inseparáveis.
Vêm sempre juntas; e quando uma está sentada à vossa mesa,
lembrai-vos de que a outra dorme em vossa cama.
Em verdade, vós estais suspensos como os pratos de uma balança
entre vossa tristeza e vossa alegria.
É somente quando estais vazios que estais equilibrados.

O mundo é como um espelho, refletindo o bom e o ruim, a alegria e a tristeza,
o riso e as lágrimas que estão em mim.
Algumas pessoas são espelhos difíceis de mirar, mas você ...
quando olhava para você. via toda a beleza que há dentro de mim.
Perder você foi sofrido.
Esquecer é difícil.
Mas pensar ou lembrar de você é pior ainda,
faz rachar a superfície das camadas finas que coloquei sobre a dor da tua partida.
Faz quebrar tudo.
Ando suavemente pela vida, acrescentando novas camadas a cada dia.
Mas à medida que a luz da tua lembrança vai sumindo,
meus dias ficam mais escuros, mais vazios.
E passo a noite com um sentimento de morte,
vendo surgir a primeira camada de vida junto com o nascer do sol.
Albert Einstein declarou que: "Em Meio às dificuldades estão as possibilidades".
Muitos que já superaram uma crise partilham dessa visão,
inclusive eu que aqui estou colocando algumas impressões minhas,
que podem ou não ser verdadeiras.

Algumas frases de Richard Bach que tirei do livro,
Ilusões As Aventuras de um Messias Indeciso
O mundo é o seu caderno, as páginas em que você faz suas somas.
Não é a realidade, embora você possa exprimir a realidade ali, se quiser.
Você também tem liberdade de escrever tolices, ou mentiras, ou rasgar as páginas.
Você é levado em sua vida pela criatura viva interior, o ser espiritual brincalhão que é o seu ser verdadeiro.

Uma nuvem não sabe por que se move em tal direção e em tal velocidade,
Sente um impulso... é para este lugar que devo ir agora.
Mas o céu sabe os motivos e desenhos por trás de todas as nuvens,
e você também saberá, quando se erguer o suficiente para ver além dos horizontes.

O laço que une a sua família verdadeira não é de sangue, mas de respeito e alegria pela vida um do outro.
Raramente os membros de uma família se criam sob o mesmo teto.

e por fim:
Valorize suas limitações, e, por certo, não se livrará delas.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Lya Luft


"Um anjo vem todas as noites:
Senta-se ao pé de mim,
e passa sobre meu coração a asa mansa,
como se fosse meu melhor amigo.
Esse fantasma que chega e me abraça
(asas cobrindo a ferida do flanco)
é todo o amor que resta entre ti e mim, e está comigo".
Lya Luft

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Uma mente brilhante


Em cima dos meus 1,54 cm de pretensão, gostaria muito de ter conhecido Carl Gustav Jung. Um grande homem que deixou um legado incontestável à humanidade.
Nos últimos tempos tenho me debatido muito com a questão das crenças, da fé, que eu já tive em excesso e hoje não tenho nenhuma. Lendo Resposta a Jó, consegui espargir alguma luz sobre a minha escuridão num trechinho curto, mas que foi muito elucidativo às minhas questões.
" O Apocalipse que se acha no final do Novo Testamento se projeta para um futuro quase ao nosso alcance, com todos os seus terrores apocalípticos. A deci­são tomada em um momento impensado por uma cabeça heros­trática* (Heróstrates que destruiu o templo de Artemis em Éfeso, no ano de 365 aC., para perpetuar a memória do próprio nome.), pode muito bem bastar para desencadear a catástrofe universal. O fio do qual pende o nosso destino adelgaçou-se. Não foi a natureza, mas o "gênio da humanidade", que prendeu a si a corda com a qual poderá enforcar-se a qualquer momento". Esta: é apenas uma variação do que João queria dizer com a expressão "ira de Deus", (se de fato é ele o autor das Cartas, como admito de minha parte) quando se viu confrontado com o duplo aspecto de Deus.
Quando alguém, se vê confrontado com um conceito paradoxal de Deus e ao mesmo tempo avalia, na sua qualidade de indivíduo religioso, todo o alcance do problema, encontra-se em situação idêntica à do autor do Apocalipse que podemos imaginar ser um cristão convicto. Sua possível identidade com o João das Cartas nos re­vela toda a agudeza da contradição: Como é que ele enfrenta a contradição insustentá­vel que existe no interior da divindade?
A natureza paradoxal de Deus divide o homem em seus contrários e o deixa entregue a um conflito aparentemente sem so­lução. Que acontece, então, num estado como este? Aqui a pala­vra deve ser deixada à psicologia, pois esta constitui a soma de todas as observações e conhecimentos que recolheu acerca da ex­periência dos estados de conflitos agudos.
Há, p. ex., choques de deveres que ninguém sabe como solucionar. A consciência sabe apenas que "tertíum non datur" [não há um terceiro termo]!
Por isso o médico aconselha a seus pacientes que esperem para ver se o inconsciente não produz algum sonho que proponha um ter­ceiro termo irracional, e, conseqüentemente, imprevisto e não esperado, como solução. Como nos ensina a experiência, nos so­nhos afloram realmente símbolos de natureza unificante. Nestes sonhos trata-se sempre da união do lado claro com o lado sombrio. Não foi sem razão que pre­cisei chegar aos 76 anos de idade para compreender a natureza das "idéias supremas" que determinam nosso comportamento ético, o que é de imensa importância para a vida prática.
Todas estas dominantes culminam no conceito positivo ou nega­tivo de Deus. A conciliação dos contrários já se acha indicada no simbolismo do destino de Cristo, a cena da crucificação, onde o mediador está suspenso entre dois malfeitores, um dos quais sobe ao paraíso e o outro desce ao inferno. Não poderia ser de outro modo: o contraste, segundo a visão cristã, devia situar-se entre Deus e o homem, contraste em que este último corria o risco de ser identificado com o lado tenebroso da existência.
Este Deus age atra­vés do inconsciente do homem, obrigando-o a unir e harmonizar as influências contrárias permanentes, às quais sua consciência está submetida. O inconsciente pretende ambas as coisas: separar e unir. É por isso que o homem, em suas tentativas de unificação, pode sempre contar com a ajuda de um defensor metafísíco, como Jó o vira claramente. O inconsciente quer introduzir-se na consciência, a fim de poder chegar à luz, mas, ao mesmo tempo, é impedido em tal desígnio, porquanto prefere permanecer inconsciente. 2. O conceito de Deus enquanto idéia que exprime uma totalidade uni­versal inclui igualmente o inconsciente, em oposição, portanto, à consciência, e também à psique, que perturba com tanta freqüência as intenções e as von­tades da consciência. A oração, p. ex., fortalece o potencial do ínconscíeite, dai seus efeitos inesperados
Como nosso modo de vida dificilmente pode comparar-se ao do cristão primitivo João, qualquer tipo de bem pode irromper em nós ao lado do mal, principalmente no que se refere ao amor. Por isso não contamos com a presença de uma vontade de des­truição tão pura como a que havia em João. Em minha expe­riência jamais observei coisa igual, com exceção de certas psi­coses agudas e obsessões de tipo criminoso.  Naturalmente, nosso relativo negror de nada nos serve. Ele atenua, é verdade, o choque das forças malignas, mas, por outro lado, nos expõe a elas e nos torna incapazes de lhes resistir. É por isso que precisamos de mais luz, de bondade e de força moral, e devemos remover nosso negrume anti-higiênico da melhor forma possível, pois senão careceríamos de condições para aceitar e, ao mesmo tempo, agüentar, sem perecermos, o Deus tenebroso que também quer tornar-se homem.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Para os que precisaram deixar partir

É triste dizer adeus,

mas às vezes é necessário.
Não podemos prender a
nós definitivamente as pessoas
que amamos para suprir nossa
necessidade de afeto.
O amor que ama,
aprende a libertar.
Procuramos ganhar tempo
para tudo na vida.
Mas a vida,
quando chega no próprio limite,
despede-se e é esse último
adeus que é difícil de compreender e,
mais ainda, aceitar.
Possuímos um conceito
errado do amor.
Amar seria,
no seu total significado,
colocar a felicidade do outro
acima de tudo,
mas na realidade é a nossa
felicidade que levamos
em consideração.
Queremos os que amamos
perto de nós porque isso
nos completa,
nos deixa bem e seguros.
E aceitar que nos deixem é a
mais difícil de todas as coisas.
Não dizemos sempre que
queremos partir antes de
todos os que amamos?
Isso é para evitar nosso
próprio sofrimento,
nossa própria desolação.
É o amor na sua forma egoísta.
Aceitar um adeus definitivo
é uma luta.
Se as perdas acontecem
cedo demais ou de forma inesperada,
o sentimento de desamparo
é muito maior e a dor
mais prolongada.
É o incompreensível casando-se
com o inaceitável e o tudo
rasgando a alma.
Essas dores poderão se acalmar,
mas nunca se apagarão.
Mas quando a vida chega ao
final depois de primaveras e
primaveras e outonos
e mais outonos,
nada mais justo que o repouso
e aceitar a partida é uma forma
de dizer ao outro que o amamos,
apesar da falta que vai fazer.
Não podemos prender
as pessoas a nós para ter
a oportunidade de dizer tudo
o que queremos ou fazer
tudo o que podemos por elas.
De qualquer forma,
depois que se forem,
sempre nos perguntaremos se
não poderíamos ter dito ou
feito algo mais.
Mas essas questões
são inúteis.
O amor que ama integralmente
não quer ver o outro
sofrer e ele abre mão dos
próprios sentimentos para que
o destino se cumpra,
para que a vida siga seu curso.
As dores do adeus são as
mais profundas de todas.
Mas elas também amenizam-se
com o tempo e um dia,
sem culpa, voltamos a sorrir,
voltamos a abrir a janela
e descobrimos novamente
o arco-íris da vida.
Depois da tempestade
descobrimos um dia novo
e o sol brilha de
maneira diferente.
E talvez seja assim
que aprendemos a dar
valor à vida,
aos que nos cercam;
aprendemos a viver de forma
a não ter arrependimentos
depois e aproveitar ainda
mais cada segundo vivido em
companhia daqueles que
nosso coração ama.
Texto de Letícia Thompson